Persepolis foi um dos livros que mais me marcou. Nasci em liberdade, e na minha experiência, na minha ideia, na minha cabeça, só havia um caminho: em frente, com mais liberdade e mais abundância. Ler Persepolis fez-me perceber que nada está garantido.
Tenho a honra e o prazer de ter amigos iranianos. É impressionante conhecer aquelas pessoas. Pela generosidade, mas também pela força da sua identidade. Ainda me lembro de como a Zahra, uma dessas amigas, se apresentou da primeira vez que a conheci: “Sou iraniana. E sou persa.”
Na altura não dei grande importância à frase. Mas, aos poucos, fui percebendo o que ela carregava. Fui ligando os pontos. A história da Zahra, a história de Persépolis e a história de Marjane Satrapi começaram a misturar-se dentro de mim. E o livro ganhou uma dimensão completamente diferente. Ainda maior.
Marjane Satrapi partiu hoje. E porque trago a história dela aqui?
Primeiro porque senti urgência em falar dela. É estranho dizê-lo sobre alguém que nunca conheci, mas é como se partisse uma amiga.
Depois porque vivemos tempos estranhos. As conquistas que eu julgava irreversíveis parecem dissolver-se em silêncio. Direitos que pareciam adquiridos voltam a ser discutidos. Liberdades que dávamos como garantidas revelam-se mais frágeis do que imaginávamos.
Foi isso que Persepolis me ensinou. A história não é uma linha recta. E o Irão é um dos exemplos mais claros disso, um país herdeiro de uma das grandes civilizações da humanidade, a Pérsia. Mas a grande força do livro nunca esteve apenas na revolução iraniana, nem na política, nem sequer na denúncia. Esteve na forma como mostrou que a liberdade se vive nos detalhes. Nos pequenos gestos. Nas escolhas aparentemente insignificantes.
Ao longo da sua juventude, Satrapi conta como tentava afirmar quem era através de coisas tão simples como a roupa que vestia, os discos que ouvia ou a atitude com que ocupava o espaço à sua volta. Num regime obcecado com o controlo, esses pequenos gestos tornavam-se atos de resistência.
A roupa deixava de ser apenas roupa. Passava a ser linguagem. Passava a ser identidade. Passava a ser uma forma de dizer: continuo aqui.
Talvez por isso Persepolis tenha atravessado fronteiras e continue a falar a pessoas de contextos tão diferentes. Porque, apesar de contar uma história profundamente iraniana, fala de algo universal: a luta para permanecermos fiéis a nós próprios quando o mundo nos tenta moldar.
Satrapi mostrou-nos pessoas reais, não caricaturas. Famílias reais, não estereótipos. E lembrou-nos que a identidade não é uma etiqueta fixa. É algo que construímos todos os dias, através das nossas escolhas, da nossa memória e da coragem de sermos quem somos.
Nos últimos anos, continuou a dar voz às mulheres iranianas e às suas lutas. Mas o seu maior legado talvez seja outro: lembrar-nos que a liberdade nunca é um estado permanente. É uma prática. Uma responsabilidade. Algo que precisa de ser defendido, geração após geração.
Por isso, ao pensar hoje em Marjane Satrapi, volto àquilo que senti quando fechei Persepolis pela primeira vez.
Nada está garantido.
E talvez seja precisamente por isso que devemos proteger, com ainda mais cuidado, tudo aquilo que nos permite ser quem somos.
