A alfarroba alimenta famílias algarvias há gerações. Agora, também aparece em botas, malas e acessórios de golfe.
Quem conhece o Algarve conhece a alfarroba. É o fruto escuro e naturalmente doce da alfarrobeira, há muito transformado em farinha, usado em bolos e frequentemente apresentado como alternativa ao cacau. Faz parte da paisagem e da cultura alimentar do sul de Portugal, tal como as amendoeiras em flor ou as casas caiadas de branco.
O que provavelmente não se espera é encontrá-la num par de botas.
É aqui que entra a Alfarroba.Tex, um material português desenvolvido como alternativa aos materiais de origem animal e a algumas soluções sintéticas utilizadas em aplicações tradicionalmente associadas ao couro.
Conhecemos o produto através da Eco Fashion Portugal e o conceito chamou-nos logo a atenção. Para percebermos melhor de onde surgiu a ideia, como o material é produzido, onde já está a ser utilizado e quais são as suas limitações, falámos diretamente com Mónica Gonçalves, criadora da Alfarroba.Tex.
Uma matéria-prima ligada à memória familiar


Mónica Gonçalves já trabalhava há vários anos na investigação e desenvolvimento de novos materiais quando decidiu explorar uma matéria-prima que lhe era especialmente próxima.
A escolha da alfarroba teve, antes de mais, uma componente pessoal:
“Escolhi a alfarroba, em primeiro lugar, pela importância que tem para mim, uma vez que toda a família do meu pai é algarvia, mais concretamente de Algoz.”
Segundo a criadora, havia também razões técnicas para explorar este fruto: a alfarroba apresenta características que considerou interessantes para o desenvolvimento do material, além de um aroma que destaca como particularmente marcante.
Desde o início, o objetivo não era criar apenas um material experimental. Mónica queria desenvolver uma solução que pudesse ser efetivamente utilizada por marcas, designers, artesãos e fabricantes.
Atualmente, a Alfarroba.Tex pode ser aplicada em áreas como moda, acessórios, marroquinaria, calçado e decoração de interiores.
Da investigação para a utilização no mundo real
Desenvolver um material em ambiente de investigação é apenas uma parte do processo. Quando passa a integrar um produto real, surgem outras exigências: exposição ao calor e à luz solar, flexões repetidas, transporte, armazenamento e utilização diária.
Foi precisamente a experiência das primeiras aplicações comerciais que permitiu identificar alguns aspetos a melhorar.
Segundo Mónica Gonçalves, o desempenho perante temperaturas elevadas, radiação UV e utilização prolongada esteve entre os pontos que levaram ao desenvolvimento de uma versão aperfeiçoada da Alfarroba.Tex.
A nova formulação procurou responder a essas necessidades e aumentar a durabilidade do material nas aplicações para as quais está previsto.
Um material que já chegou a produtos comerciais
A Alfarroba.Tex já saiu do laboratório e foi utilizada em produtos colocados no mercado.
Entre as aplicações conhecidas encontram-se:
- A Mukishoes, marca portuguesa de calçado minimalista, utilizou o material numa edição limitada de botas da coleção Outono/Inverno 2024/25.
- A Marita Moreno integrou-o em modelos de botas, incluindo as Michone Carob e Laureline Carob.
- A Mogshade, que produz acessórios em Portugal, utilizou Alfarroba.Tex no exterior de capas para cabeças de tacos de golfe.
Calçado minimalista, moda e acessórios de golfe são aplicações bastante distintas, o que ajuda a perceber a amplitude de utilizações que está a ser explorada.
Perguntámos a Mónica quais considera serem as aplicações mais adequadas para o material. A resposta aponta para marroquinaria, acessórios, artigos de exterior, decoração e calçado, embora sublinhe uma condição importante: cada utilização deve ser devidamente pensada em função das características do material.
Ou seja, não basta substituir um material por outro diretamente. O desenho do produto e a forma como a Alfarroba.Tex é integrada também contam.
A ligação a Itália
Quando lhe perguntámos qual tinha sido a sua colaboração favorita até agora, Mónica preferiu não escolher uma.
Diz valorizar todas as parcerias e considera que cada projeto contribuiu para a evolução do próprio material.
Há, no entanto, uma colaboração com um significado especial: a GRADO ZERO, empresa italiana especializada em materiais inovadores que Mónica já acompanhava antes de começarem a trabalhar em conjunto.
“Foi sempre uma empresa que acompanhei e admirei.”
Atualmente, a GRADO ZERO é cliente da Alfarroba.Tex e representa o material no mercado italiano.
Para um projeto português ainda relativamente jovem, esta relação representa também um primeiro passo na sua presença internacional.
Um material vegan desenvolvido e produzido em Portugal

Uma das perguntas importantes quando se fala de alternativas ao couro diz respeito à composição.
Questionada diretamente sobre a presença de componentes de origem animal, Mónica é clara:
“Sim, é um material 100% vegan, uma vez que não contém qualquer matéria-prima de origem animal.”
Segundo a criadora, a origem portuguesa é igualmente um elemento central do projeto: a alfarroba utilizada é portuguesa, a produção é realizada em Portugal e a tecnologia associada ao desenvolvimento do material também foi criada no país.
“A Alfarroba.Tex é feita com alfarroba 100% portuguesa, e isso é algo de que não abdico.”
Não é preciso ser uma grande marca para experimentar
A Alfarroba.Tex não está reservada a grandes fabricantes.
De acordo com Mónica, não existem quantidades mínimas de encomenda e, até à data da nossa conversa, todas as encomendas recebidas tinham conseguido ser satisfeitas.
Para quem quer experimentar o material antes de avançar para produção, é possível começar por uma amostra em formato A5 acompanhada de ficha técnica.
A equipa presta também apoio na escolha da aplicação e na melhor forma de trabalhar o material.
Para um pequeno atelier, designer independente ou artesão, esta possibilidade é especialmente relevante: permite testar como o material se comporta ao cortar, coser, colar ou integrar numa peça antes de assumir o custo e o risco de uma produção maior.
Como trabalhar e cuidar da Alfarroba.Tex
Uma vantagem apontada por Mónica é a familiaridade do processo de trabalho para quem já utiliza couro ou materiais semelhantes.
Os cuidados também não são particularmente complexos.
Segundo as indicações que nos foram transmitidas, deve evitar-se o armazenamento prolongado de peças acabadas em ambientes muito húmidos, assim como lavagens à máquina a temperaturas elevadas.
Para a limpeza corrente, um pano húmido é suficiente.
Isto significa que artesãos e fabricantes habituados a trabalhar com materiais para marroquinaria ou calçado não precisam necessariamente de aprender um processo completamente novo para começar a experimentar a Alfarroba.Tex.
Da árvore para o guarda-roupa

A procura de novas matérias-primas para moda, acessórios e design está a transformar produtos agrícolas, resíduos e recursos tradicionais em materiais com utilizações inesperadas.
A alfarroba junta-se agora a essa investigação.
Isso não significa necessariamente que novos materiais tenham de substituir todos os que já existem. Podem, simplesmente, aumentar o número de opções disponíveis para designers, artesãos e marcas — desde que as suas propriedades, composição, durabilidade e impacto sejam comunicados com transparência.
No caso da Alfarroba.Tex, há ainda uma história particularmente portuguesa por trás do material: uma matéria-prima profundamente associada ao Algarve transformada através de investigação e desenvolvimento feitos em Portugal.
A alfarroba continua a ser alfarroba. A diferença é que, neste caso, o seu percurso já não termina necessariamente na cozinha.
