Cidadade do Zero: Eu fui

Não era a Cidade do Rock, mas durante dois dias o Parque Eduardo VII transformou-se numa cidade diferente. Uma cidade feita de trocas, reparações, hortas urbanas, comida com menos desperdício, água da torneira, workshops e até algumas galinhas muito bem-dispostas.

Fomos à Cidade do Zero e reencontrámos algumas das marcas que já conhecíamos e de que tanto gostamos, mas também descobrimos outras que queremos trazer até ao Roupeiro. Ainda assim, o que mais nos ficou foi a diversidade de soluções reunidas num só lugar — diferentes formas de criar cidades mais circulares, com menos desperdício e, no fundo, mais humanas.

Um mercado de trocas que nos é familiar

Mercado das trocas, cidade do zero
Mercado das trocas

O Mercado de Trocas não desiludiu.

O conceito é simples: levar roupa que já não usamos e trocá-la por outras peças. Mas talvez seja precisamente essa simplicidade que faz sentido.

Para nós, há também alguma familiaridade nesta ideia. O Roupeiro começou muito ligado à vontade de aproximar pessoas e de ajudar a dar uma segunda oportunidade às peças que já existem.

Num evento dedicado à circularidade, ver a troca de roupa ocupar um espaço importante pareceu-nos particularmente relevante. Nem tudo tem de passar por comprar algo novo — mesmo quando esse “novo” é produzido de forma mais sustentável.

Às vezes, a peça de que precisamos já existe. Está apenas no roupeiro de outra pessoa.

Reparar antes de substituir

Vintage for a Cause e Junta Cacos partilharam espaço na Cidade do Zero — dois projetos diferentes, unidos pela ideia de prolongar a vida do que já existe.
Vintage for a Cause e Junta Cacos — dois projetos diferentes, unidos pela ideia de prolongar a vida do que já existe.

A zona dedicada à reparação também tinha uma presença forte.

Havia diferentes soluções e abordagens para prolongar a vida de objetos que, noutro contexto, poderiam simplesmente acabar no lixo.

É uma ideia básica da economia circular, mas que continua a ser fácil esquecer: um objeto danificado não é necessariamente um objeto sem valor.

Com a roupa acontece exatamente o mesmo.

Uma costura, um fecho, um pequeno rasgão ou uma adaptação podem significar vários anos adicionais de utilização. Reparar pode não ter o mesmo apelo imediato de comprar algo novo, mas muitas vezes é a opção mais lógica.

Galinhas no Parque Eduardo VII

Capoeiras na cidade do zero, lembrando a importância da distancias do produtor ao consumidor

Nem tudo o que encontrámos era previsível.

Uma das surpresas foram as soluções ligadas às hortas urbanas — incluindo um pequeno galinheiro. E, convenhamos, é sempre divertido encontrar galinhas. Ainda mais galinhas aparentemente bem-dispostas no meio do Parque Eduardo VII.

Mas, para lá do lado curioso, a presença de hortas urbanas num evento destes também ajuda a perceber que circularidade não se resume a reciclar embalagens ou comprar produtos com materiais reaproveitados.

Passa também por repensar a forma como produzimos alimentos, usamos o espaço das cidades e nos aproximamos daquilo que consumimos.

Menos desperdício e menos quilómetros

A alimentação tinha, aliás, uma presença importante na Cidade do Zero.

Encontrámos várias propostas relacionadas com redução do desperdício, produção mais próxima do consumidor e cadeias de distribuição mais curtas. Exemplos disso são a Quinta do Arneiro, que produz e entrega cabazes diretamente aos consumidores, e as HortasLx, que levam a produção de alimentos para mais perto de quem vive na cidade.

Também passámos pela banca da EPAL. Inesperado? Talvez à primeira vista. Mas promover a água da torneira como água de qualidade encaixa perfeitamente neste contexto. Beber água da rede pode significar menos garrafas descartáveis, menos embalagens e menos transporte associado ao consumo de água engarrafada.

É um daqueles exemplos particularmente interessantes porque mostra que algumas soluções para reduzir desperdício já existem à nossa volta. Não exigem necessariamente novos produtos nem grandes investimentos.

Por vezes, exigem apenas uma mudança de hábito.

Também aprendemos a fazer kombucha

Entre as várias atividades do programa, assistimos ainda a um workshop sobre como fazer kombucha.

É precisamente este tipo de componente prática que ajuda um evento sobre sustentabilidade a não ficar preso apenas às ideias.

Podemos falar de circularidade, consumo consciente ou redução de desperdício durante horas. Mas ver, experimentar e aprender a fazer alguma coisa torna estes conceitos muito mais concretos.

E talvez seja aí que a Cidade do Zero funciona melhor: quando transforma ideias que podem parecer abstratas em pequenas escolhas do dia a dia.

Um lugar à altura do evento

Vista da cidade do zero

O Parque Eduardo VII também merece uma palavra.

É uma zona central e emblemática de Lisboa, e parece-nos um palco particularmente adequado para um evento que pretende discutir como podem ser as cidades do futuro.

Durante os dois dias, o espaço recebeu marcas, associações, oficinas, conversas, comida, reparações, trocas, hortas e muitas pessoas curiosas.

A adesão pareceu-nos muito boa.

E, arriscamos nós, num fim de semana menos quente talvez ainda tivesse aparecido mais gente. Com as temperaturas que se fizeram sentir, a praia foi provavelmente um concorrente difícil de bater.

Circularidade é mais do que consumir melhor

Saímos da Cidade do Zero com uma ideia reforçada.

Quando falamos de sustentabilidade, é fácil concentrarmo-nos nos produtos: materiais melhores, produção local, embalagens diferentes ou marcas mais responsáveis.

Tudo isso conta.

Mas uma cidade mais circular não se constrói apenas com produtos melhores.

Constrói-se também com roupa que muda de mãos, objetos que são reparados, alimentos que percorrem menos quilómetros, água da torneira, hortas urbanas, conhecimento partilhado e espaços onde as pessoas se encontram.

Talvez seja precisamente isso que torne estas soluções interessantes.

No fundo, falar de circularidade é também falar de cidades onde usamos melhor aquilo que já temos — e onde estamos um pouco mais próximos uns dos outros.